Resposta ao Cardeal Sarah

Fonte: Casa Autônoma do Brasil

Em um artigo publicado jornal francês Le Journal du Dimanche em 22 de fevereiro de 2026, o Cardeal Sarah, que nos últimos anos tem sido uma forte fonte de encorajamento para muitos fiéis, manifesta sua preocupação com o anúncio das sagrações episcopais pela Fraternidade São Pio X.

O cardeal escreve: "Quantas almas correm o risco de se perder por causa dessa nova divisão?" É legítimo questionar se são realmente as almas dos fiéis que frequentam as capelas da Fraternidade que estão em perigo, ou se não deveríamos temer mais pela salvação daqueles que seguem os "prelados que renunciam ao ensino do depósito da fé" ou os "lobos em pele de cordeiro", justamente denunciados pelo prelado.

O remédio proposto por Sua Eminência àqueles que desejam "lutar pela fé, pela moral católica e pela Tradição litúrgica" é a fidelidade ao Sucessor de Pedro. Todo católico deveria, então, aceitar o que vem do Papa sem jamais desobedecer. Contudo, isso não é tão simples quanto parece, pois não foi precisamente de Roma que vimos recentemente a abertura da comunhão eucarística aos católicos divorciados recasados, a bênção de casais em união irregular, a afirmação de que Deus quer a pluralidade de religiões, o questionamento de títulos tradicionalmente atribuídos à Bem-Aventurada Virgem Maria e empregados ​​por muitos papas, e até mesmo a tentativa de supressão a longo prazo do missal tradicional? No entanto, o próprio Cardeal Sarah opôs-se a muitas dessas inovações em nome da Tradição.

Por um lado, ele nos mostra o exemplo da boa luta pela fé, pela moral católica e pela tradição litúrgica; por outro, nos convida a obedecer àqueles que são a fonte dos males que combatemos. Como podemos fazer isso quando cardeais podem difundir opiniões heterodoxas, condenadas pelo próprio cardeal guineense, sem jamais serem incomodados pelas autoridades da Igreja? Que conclusão tirar disso, senão que não temos outra escolha, antes de concordar, a não ser distinguir entre os ensinamentos fiéis à fé de sempre e aqueles que são a expressão de um pensamento novo, irreconciliável com o magistério anterior? Embora o atual papa exerça o pontificado supremo recentemente, suas nomeações para os mais altos cargos, assim como seus discursos e homilias, não sugerem nenhuma mudança significativa.

Por fim, o Cardeal Sarah nos convida a refletir sobre o belo exemplo de obediência heroica de Padre Pio. Permitam-nos, no entanto, observar a imensa diferença entre a situação do estigmatizado de Pietrelcina e a da Fraternidade São Pio X. Ele aceitou com fé, humildade e obediência uma grave injustiça a seu respeito, mas que não teve consequências externas quanto à salvação das almas. A Fraternidade, por sua vez, se levanta contra uma injustiça que atinge o bem comum da Igreja, ferida em sua fé, sua moral e sua liturgia, como reconhece o cardeal. Como permanecer em silêncio quando a fé e a salvação dos fiéis estão ameaçadas? Não é necessário, por caridade para com essas almas, que alguns ousem se opor àqueles que propagam o erro?

São Paulo opôs-se publicamente a São Pedro em Antioquia, antes que o primeiro papa reconhecesse seu erro. Santo Atanásio, embora a maioria dos bispos se aproximava da heresia de Ário, foi excomungado pelo Papa Libério, mas continuou a pregar e a iluminar as almas. Padre Pio teve, portanto, razão em obedecer às sanções injustas que lhe foram impostas, pois nada ameaçava a fé dos fiéis. Menos conhecido é o fato de que ele se recusou a celebrar a missa segundo o missal experimental de 1965 na língua vernácula e que continuou a celebrar a missa de sua ordenação até sua morte, em 1968, alguns meses antes da entrada em vigor da reforma litúrgica. O que ele teria feito então?

Eminência, suplicamos-lhe que utilize a sua autoridade, a sua notoriedade e a sua pena para convencer o Santo Padre a pôr fim à crise doutrinária, moral e litúrgica que a Santa Igreja atravessa. Assim, a Fraternidade São Pio X não terá mais a necessidade de ordenar bispos sem mandato pontifício. Assim, haverá uma verdadeira unidade e uma perfeita comunhão na Igreja de Deus: a unidade e a comunhão na fé.

Padre Étienne Ginoux, FSSPX