D. Athanasius Schneider: “por que atacar publicamente a FSSPX, ameaçá-la, qualificá-la de cismática?”

Fonte: Casa Autônoma do Brasil

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar da diocese de Astana, concedeu recentemente uma entrevista ao The Remnant, assim como outra ao Certamen. Nelas, chama seus irmãos no episcopado a reconsiderarem a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, vendo nas sagrações previstas para o próximo 1º de julho um benefício para a Igreja, e não oculta seu desejo de ver um dia Dom Marcel Lefebvre canonizado.

Um olhar forjado por um conhecimento direto da Fraternidade

Neste 25 de março de 2026, por ocasião do 35º aniversário da morte de Dom Lefebvre, o jornalista Michael J. Matt recebeu, diante dos microfones do meio de comunicação americano The Remnant TV, o bispo auxiliar Dom Athanasius Schneider. Este explicou seu percurso desde o dia em que foi designado visitador oficial do Vaticano junto à FSSPX:

“O Papa Francisco me pediu, juntamente com outros três bispos, há mais de dez anos, em 2015, que visitássemos várias casas da Fraternidade, em particular seminários. Eu era um desses bispos oficialmente encarregados pela Santa Sé.

Assim, adquiri um conhecimento direto da realidade da Fraternidade, vivendo com eles vários dias em distintas casas, falando com os superiores, os professores e os seminaristas. E, para me preparar para essa missão, li numerosos documentos: uma extensa biografia de mais de 800 páginas, assim como os documentos e escritos pastorais de Dom Lefebvre, desde que foi sagrado bispo em 1947 até sua morte.

Dediquei realmente muitos meses a ler todos esses documentos. Também tive acesso a outros documentos nos arquivos da Santa Sé, já que devia realizar esse trabalho. Assim adquiri um conhecimento dessa questão por diversos meios, e creio que em grau bastante elevado.

Desde então, mantive um contato regular com várias casas, superiores, sacerdotes e até famílias da Fraternidade. E quanto mais progride a crise da Igreja diante de nossos olhos, mais estou convencido de que a obra de Dom Lefebvre — ele mesmo e a Fraternidade — é uma obra da Igreja, que a divina Providência nos deu neste tempo extremamente confuso e difícil.”

As sagrações de 1988 e as de 2026: uma continuidade de serviço à Igreja

Ao examinar os motivos e as intenções das consagrações episcopais conferidas por Dom Lefebvre em 1988 sem mandato pontifício, Dom Schneider vê nelas uma continuidade com aquelas que a FSSPX prevê conferir, até agora também sem mandato pontifício, em 1º de julho de 2026:

“Como Dom Lefebvre o disse em repetidas ocasiões, e como os superiores da Fraternidade ainda hoje o repetem, não se consideram uma obra feita para si mesmos, mas um serviço prestado à Santa Igreja, a toda a Igreja, e até à própria Santa Sé.

Quando Dom Lefebvre sagrou bispos em 1988, disse: ‘Faço isto pelos papas’. Isto é, para que se conserve a integridade de tudo aquilo que a Igreja, a Igreja romana e os papas, até o Concílio, haviam mandado observar estritamente: a fé, a liturgia, a formação sacerdotal, exatamente como a Igreja o havia ordenado durante séculos.

Dizia: ‘Não fazemos outra coisa senão o que a Igreja pediu e mandou durante séculos. Então, como poderíamos fazer algo mau, se é precisamente o que a Igreja considerou e até exigiu durante séculos, e que produziu santos? Essa formação sacerdotal, ao longo dos séculos — como poderia tornar-se de repente nociva ou incorreta?’

E o arcebispo dizia também: ‘Não introduzimos absolutamente nada de novo; apenas aquilo que a Igreja queria.’

O objetivo era transmitir tudo isso através deste tempo de confusão, que não é senão temporário. Porque devemos crer firmemente que as portas do inferno não prevalecerão contra a Santa Sé. A situação atual é uma espécie de exílio de Avinhão, se posso falar em sentido espiritual ou metafórico. A clareza cristalina do magistério do Papa e da Cátedra de Pedro está obscurecida. Também a liturgia. E tudo isso, inclusive em Roma, que deveria ser a luz e a rocha, está obscurecido.

Isso não significa de modo algum sedevacantismo. É simplesmente algo obscurecido, do mesmo modo que em Avinhão havia verdadeiros Papas, mas não estavam em Roma. Roma ficou vazia durante setenta anos. De maneira simbólica, acontece algo parecido hoje: a Santa Sé está parcialmente obscurecida pela influência do neomodernismo, que é um naturalismo e um relativismo. Mas isto é apenas temporário.

A Santa Sé recuperará novamente toda a clareza, toda a força, todo o vigor da fé católica, da santa liturgia. Tudo isso voltará. E Dom Lefebvre estava profundamente convencido disso.

Mesmo depois das consagrações de 1988, dizia que talvez em pouco tempo tivéssemos novamente em Roma um Papa forte, tradicional. E então vós, os bispos, ireis até ele, lhe oferecereis vosso episcopado e lhe direis: ‘Santíssimo Padre, tomai nosso episcopado; fazei de nós o que quiserdes’. Porque então nosso episcopado já não seria necessário, posto que essa tarefa seria novamente assumida pela Santa Sé e pelo próprio Papa.

Penso que, com a mesma intenção e no mesmo espírito, este ano a Fraternidade fará o mesmo: oferecer esses novos bispos como uma ponte neste tempo muito obscuro, mas para a Santa Igreja, para Roma, para os futuros papas. E quando um dia houver de novo — repito — um Papa 100% tradicional, porque essa é a essência do papado: ser 100% tradicional, e isso virá no tempo de Deus, não sabemos quando, mas virá, então imagino que os novos bispos sagrados em julho dentro da Fraternidade irão também até ele e lhe dirão: ‘Santíssimo Padre, nosso episcopado já não é necessário; agora Vós cumpris essa tarefa. Fazei de nós o que quiserdes.’

Tal era a atitude de Dom Lefebvre, e estimo que continua sendo a da Fraternidade hoje, como ela o proclamou e como o superior geral, o Padre Pagliarani, o escreveu ao Papa Leão. Uma atitude assim não é de modo algum cismática.”

Uma refutação das acusações de cisma

Dom Schneider se propõe a defender a FSSPX diante das acusações recorrentes de cisma dirigidas contra ela:

“Devemos, portanto, corrigir nossa compreensão do cisma. Nos últimos séculos, tivemos uma visão muito redutora do cisma, uma visão completamente legalista. E também tivemos uma visão redutora da obediência. Inclusive absolutizamos a obediência ao Papa, que é uma criatura: o Papa não é Deus.

Na realidade, devo dizê-lo, existe na psicologia de muitas pessoas, tradicionais ou conservadoras, e até de alguns bispos e cardeais até hoje, uma espécie de divinização implícita do Papa. Digo bem implícita, não formal nem explícita. A partir daí, toda desobediência é imediatamente rotulada: ‘O senhor é cismático’, porque desobedeceu.

Isso era alheio à grande tradição da Igreja. Completamente alheio aos Padres da Igreja. Sou patrólogo, e posso afirmá-lo. Quando Santo Atanásio desobedeceu ao Papa Libério, que o excomungou, essa excomunhão foi formal, certamente, segundo a lei. Mas considero que essa excomunhão era inválida aos olhos de Deus. Como o Papa Libério, que havia cooperado em certa medida com a ambiguidade semiariana, poderia ter excomungado o maior defensor da ortodoxia? Aos olhos da história, a excomunhão de Atanásio foi injusta; creio que, aos olhos de Deus, foi inválida.

Por isso penso que, na questão atual da Fraternidade e dessas consagrações, há algo de providencial. Deus o permite, porque somos uma grande família, e a Fraternidade faz parte de nossa família. Não está fora da Igreja. Como o senhor recordou, nomeia o Papa no cânon; nomeia também o bispo local no cânon. Recebeu de Roma as faculdades para ouvir confissões, e estas continuam válidas, não foram revogadas. Como uma comunidade cismática poderia possuir faculdades válidas para a confissão? Porque isso é uma forma de jurisdição.

O Papa Francisco inclusive pediu aos bispos e aos pastores que lhes concedam a possibilidade de assistir canonicamente aos matrimônios. E eles podem fazê-lo efetivamente. Além disso, em certos casos muito graves de delitos sacerdotais, ocorreu, no momento de minha visita, que Dom Fellay me informou de um caso que havia sido comunicado à Santa Sé; e a Santa Sé delegou então a Dom Fellay, como juiz, em nome da Santa Sé, para levar a cabo a investigação canônica. Como poderia um cismático fazer isso?

Devemos, pois, recuperar uma visão mais equilibrada do que é o cisma e do que é a obediência na Igreja. Nem toda desobediência ao Papa é automaticamente cismática. E inclusive uma consagração episcopal realizada contra a vontade do Papa, portanto ilícita nesse caso, não é em si mesma um ato mau. Alguns representantes de comunidades tradicionais provenientes de Ecclesia Dei declararam publicamente que uma consagração episcopal ilícita, contra a vontade do Papa, seria um mal intrínseco. Isso é completamente falso. Nunca foi ensinado pela grande tradição da Igreja.

Por exemplo, o servo de Deus cardeal Josyf Slipyj, da Igreja greco-católica, hoje reconhecido por suas virtudes heroicas, consagrou em segredo três bispos em Roma, contra a vontade do Papa Paulo VI, sabendo que Paulo VI não o permitia. Haveria então que concluir que o servo de Deus Josyf Slipyj cometeu um mal intrínseco e incorreu em excomunhão automática? Certamente que não.

Devemos, portanto, voltar à grande visão equilibrada dos Padres da Igreja do primeiro milênio. E, em consequência, a intenção da Fraternidade é claramente não cismática, de maneira reiterada. Atua unicamente como um serviço prestado à Igreja e ao papado. E penso que um dia, depois desta imensa crise, a Igreja estará agradecida à Fraternidade.”

A liberdade própria da FSSPX a serviço da Igreja

Indo mais longe, Dom Schneider agradece à FSSPX o combate litúrgico que leva a cabo a serviço da Igreja e que ele faz seu, sublinhando a liberdade sem equivalente de que dispõe:

“Dom Lefebvre, por amor à Igreja, aceitou fazer isso ao preço de ser suspenso pelo Papa. Naquela época, há cinquenta anos, em 1976, nesse contexto, um alto representante da Santa Sé disse a Dom Lefebvre: ‘Nosso problema é a missa’.

Naquele momento, a questão dos problemas doutrinais do Concílio ainda não era a principal; tratava-se antes da santa Missa, da Missa tradicional. E esse alto representante da Santa Sé disse ao arcebispo: ‘Se o senhor aceitasse apenas uma vez celebrar publicamente, diante de seus seminaristas e dos fiéis, o Novus Ordo, então todos os nossos problemas ficariam resolvidos’.

Mas ele recusou. Disse: ‘Minha consciência não mo permite’. Porque agir assim era entrar na ambiguidade.

Reconhecia que o Novus Ordo é válido, sempre que seja celebrado segundo as regras do missal. Mas, inclusive celebrado em latim e segundo as rubricas, contém em si mesmo elementos altamente ambíguos, em particular as orações do ofertório e a segunda oração eucarística, que enfraquecem de maneira muito clara o caráter sacrificial e propiciatório da santa Missa, que é, no entanto, o mesmo sacrifício do Gólgota. Isso põe o acento principal na Missa como uma refeição.

E isso é grave. Não podemos simplesmente dizer: ‘Que se celebre o Novus Ordo em latim ou ad orientem, e tudo estará resolvido’. Não é suficiente. Porque esses dois elementos são realmente altamente ambíguos. E não podemos tolerar que, no ato central e mais sublime da Igreja — que é a representação sacramental, a atualização do sacrifício do Gólgota, o maior ato de adoração prestado a Deus na terra —, esse ato esteja afetado por uma ambiguidade doutrinal.

Não digo que o Novus Ordo seja herético, não. Mas enfraquece fortemente a doutrina. A Igreja não pode permitir-se continuar assim. Por isso a Fraternidade presta um imenso serviço ao futuro da Igreja ao assinalar e pedir à Santa Sé que corrija essas ambiguidades doutrinais do Novus Ordo.

As outras comunidades chamadas Ecclesia Dei, que têm a Missa tradicional, não se atrevem a dizê-lo. Se começassem a pedi-lo, receberiam amanhã um comissário e seriam obrigadas a submeter-se. Viu-se isso nestes últimos anos: três paróquias florescentes da Fraternidade São Pedro, na França, foram fechadas por seus bispos, e todos os seus recursos diante da Santa Sé ficaram sem efeito. A Santa Sé não as ajudou.

Inclusive me foi relatado recentemente, de maneira confiável, um caso acerca de outro instituto Ecclesia Dei na Europa: já estavam presentes numa diocese com o acordo do bispo anterior. Pediram ao novo bispo formalizar sua presença mediante uma fundação canônica, o que o bispo pode conceder por sua própria autoridade sem necessidade de pedir autorização a Roma. O direito canônico o prevê. No entanto, esse bispo perguntou igualmente a Roma: devia reconhecer e estabelecer oficialmente essa comunidade em sua diocese? E Roma respondeu: ‘Não lhes dê o reconhecimento’. Eis a situação, a realidade.”

Três pontos doutrinais maiores que devem ser esclarecidos

Dom Schneider identifica os mesmos erros doutrinais fundamentais que a FSSPX e que, desde o Vaticano II, requerem um exame profundo na Igreja para serem corrigidos:

“Depois, estão os outros elementos doutrinais que devem ser discutidos e debatidos na Igreja. Não se pode simplesmente dizer: ‘Resolvamos isso com a famosa hermenêutica da continuidade’. Não. Isso não é intelectualmente honesto. É uma maneira de querer quadrar o círculo. Eu chamo isso de uma acrobacia mental. Não funciona e não convence. Deixa subsistir a ambiguidade.

A Igreja não pode permitir-se permanecer na ambiguidade doutrinal. E os temas são principalmente três.

O primeiro é a chamada liberdade religiosa, tal como foi formulada. Quando se a lê simplesmente tal como está, é altamente ambígua e favorece o relativismo: todas as religiões teriam o mesmo direito de ser propagadas e toleradas, e esse direito não seria somente um direito civil, mas estaria enraizado na natureza da pessoa humana, isto é, um direito natural. Ora, o direito natural é positivamente querido por Deus. E Deus não pode querer positivamente que religiões idolátricas tenham o mesmo direito de difundir-se que a única verdadeira religião que Ele mandou a toda a humanidade, a religião católica.

É, pois, algo ambíguo, relativizante, e isso é evidente para qualquer um que o leia. E a consequência do chamado ‘espírito do Concílio’, como o senhor o mencionou, é que essa expressão de Dignitatis humanae foi interpretada, em quase todas as faculdades de teologia e nos seminários do mundo inteiro, como significando em substância que todas as religiões têm os mesmos direitos, a mesma dignidade, como se fossem caminhos iguais para Deus. Isso é o que o próprio Papa Francisco expressou em Abu Dhabi.

Na volta, no avião, um jornalista lhe perguntou se essa afirmação do documento de Abu Dhabi — segundo a qual Deus quer a diversidade de religiões em sua sabedoria criadora — não era relativista. O Papa Francisco respondeu que não, que essa frase não se afastava nem um milímetro do que o Concílio havia ensinado sobre a religião. Nisso, ao menos, foi honesto.

Alguns sacerdotes tradicionais escrevem então livros inteiros, de quinhentas páginas ou mais, para tentar quadrar o círculo e explicar que se pode interpretar tudo isso em sentido tradicional. Mas o simples fato de que uma só frase exija cem ou quinhentas páginas de interpretação já é sinal de que há algo que não funciona, de que há uma grave ambiguidade e de que deve ser corrigida.

Essa fórmula, segundo a qual toda pessoa humana é livre para escolher sua religião segundo sua consciência, sem ser impedida por ninguém de professá-la, praticá-la e propagá-la, individual e coletivamente, e de que esse direito está enraizado na natureza humana, essa fórmula só é aplicável à fé católica. Para as outras religiões, seria preciso acrescentar outra coisa: deve haver tolerância, certamente, mas não é a mesma coisa.

A Igreja o disse desde os Padres da Igreja. Santo Agostinho, entre outros, o disse: não se podem pôr as religiões pagãs do Império romano no mesmo nível da fé em Jesus Cristo. Os cristãos morreram por isso. Portanto, esse ponto deve ser corrigido.

O segundo ponto é o falso ecumenismo. A afirmação segundo a qual outras comunidades cristãs seriam, enquanto comunidades, instrumentos do Espírito Santo na obra da salvação, essa formulação relativiza praticamente o lugar único da Igreja católica, colocando-a de facto quase no mesmo nível que as demais comunidades cristãs.

Seria mais exato dizer que o Espírito Santo pode utilizar certas pessoas individuais, dentro dessas comunidades, como instrumentos de salvação. Mas não se pode dizer que suas próprias estruturas, que são objetivamente heréticas ou cismáticas, sejam como tais instrumentos de salvação. Uma vez mais, isso é altamente ambíguo. E veem-se os frutos dessas ambiguidades no diálogo inter-religioso e no ecumenismo: uma relativização constante da unicidade da Igreja católica.

Depois está a fórmula de Lumen gentium 16, segundo a qual nós, os católicos, adoramos juntamente com os muçulmanos o Deus único. Como se poderia adorar juntamente com os muçulmanos? É impossível, inclusive do ponto de vista da natureza do ato de adoração. O ato de adoração do cristão é sempre, no plano sobrenatural, o de um filho de Deus. Ao passo que o ato de adoração de um muçulmano, ainda que sincero, ainda que ignorante do Alcorão como texto, que quer simplesmente adorar o Criador, pertence a outra ordem: não tem a filiação divina pelo batismo e pela Fé. Seu ato de adoração é, portanto, essencialmente diferente do nosso.

Como então formular numa só frase: ‘Adoramos com os muçulmanos’? É impossível. E é, no mínimo, altamente ambíguo. E então, se adoramos com os muçulmanos o mesmo Deus, por que evangelizar os muçulmanos? Essa é a consequência. E por que converter os protestantes ou os cismáticos à Igreja, se suas comunidades são também, como diz o Concílio, instrumentos do Espírito Santo para a salvação?

Há sessenta anos, esses são os frutos de tais formulações altamente ambíguas: chegamos a uma confusão completa e a uma relativização total da verdade.

O terceiro ponto grave é a chamada colegialidade, isto é, essa doutrina completamente nova, que não foi ensinada pelos Padres nem pelos Papas antes do Concílio, segundo a qual o colégio dos bispos, com o Papa, possuiria de maneira permanente a autoridade suprema sobre toda a Igreja. Isso é uma novidade. Nunca foi ensinado. E é contrário ao Evangelho.

Nosso Senhor disse a uma só pessoa: ‘Apascenta as minhas ovelhas… apascenta os meus cordeiros’, isto é, os bispos e todo o rebanho. Não o disse a Pedro e aos demais apóstolos juntos. Poderia ter dito: ‘Pedro, e vós, os demais apóstolos com ele, apascentai o meu rebanho’. Mas não o disse.

O ensinamento de Lumen gentium sobre a colegialidade, nesse sentido, enfraquece, portanto, a Tradição Católica e o Evangelho a respeito da estrutura monárquica da Igreja, que Deus estabeleceu. Há um chefe sobre a Igreja universal: Pedro, o papado. E há bispos à frente das Igrejas locais. Não existe uma instância intermediária, instituída divinamente, que exerça de maneira permanente um governo supremo coletivo sobre a Igreja universal.

Isso só é possível em casos particulares, quando o Papa julga oportuno fazer participar o colégio dos bispos em seu poder supremo único, por exemplo num concílio ecumênico ou num sínodo particular ao qual ele dá valor universal. Isso depende do Papa. Ele não pode ser obrigado a isso.

Desde sempre, os Papas souberam, naturalmente, que são também a cabeça do colégio dos bispos. Consultaram-nos de diversas maneiras na história, em sínodos ou concílios. Mas isso não muda em nada a estrutura monárquica da Igreja.

Essas três questões doutrinais são, pois, importantes. Devem resolver-se. E aqui, a Fraternidade São Pio X é uma ajuda imensa para toda a Igreja, porque impulsiona a enfrentar honestamente esses problemas doutrinais, assim como o do Novus Ordo. Isso tomará tempo, certamente. A Igreja tem tempo.

Por isso lancei esse apelo ao Papa Leão: ‘Por favor, construa uma ponte. Dê o mandato apostólico para essas consagrações episcopais. Seria um primeiro passo rumo à integração e à normalização’. A situação canônica ainda não ficaria completamente resolvida; isso poderia vir depois. Mas um primeiro passo já criaria um clima de confiança mútua para o debate que deve ter lugar na Igreja, com a ajuda da Fraternidade São Pio X.

Espero e rezo até o último dia pelo milagre de que o Papa Leão dê essa permissão para as consagrações episcopais. É preciso crer como crianças e rezar para que este seja o modo justo pelo qual o Papa atue neste contexto.”

Ataques públicos lamentáveis contra a FSSPX no mundo tradicional

Dom Schneider lamenta as críticas dirigidas à FSSPX por outros setores tradicionais ou conservadores, chamando a uma atitude mais fraterna e construtiva no contexto atual de crise:

“E também lamento que, neste contexto, muitas comunidades tradicionais e alguns bispos ou cardeais conhecidos por seu amor à tradição tenham começado publicamente a atacar a Fraternidade São Pio X, a qualificá-la de cismática ou a ameaçá-la com a excomunhão. Isso não ajuda em nada. Deveria ser o contrário.

Nesta imensa confusão da Igreja, com essa relativização, essas blasfêmias e sacrilégios cada vez mais frequentes nas celebrações da Missa, com bispos e cardeais que proclamam publicamente heresias sem serem castigados, que pedem a ordenação de mulheres, ou anunciam que em breve ordenarão sacerdotes casados, sem serem corrigidos, nem sequer advertidos; sem falar do ‘caminho sinodal’ alemão, que mina totalmente a estrutura da Igreja para moldá-la segundo uma comunidade protestante, e Roma não intervém há anos; neste contexto em que o mundo se torna cada vez mais anticristão, com a imposição mundial da ideologia de gênero e da homossexualidade, e na Europa uma islamização crescente…

Recentemente, por exemplo, o primeiro-ministro espanhol declarou que, se na Espanha alguém criticasse o islamismo e o profeta Maomé, essa pessoa poderia ser encarcerada por cinco anos. Mas não disse o mesmo se alguém insultasse a Jesus Cristo. Eis a situação.

Num tal contexto, deveríamos unir todos aqueles que ainda conservam a integridade da fé católica, da formação sacerdotal e da santa Missa — exatamente o que a Fraternidade busca. Já em novembro, o superior geral pediu ao Papa, com prudência e respeito, que não se opusesse a essas consagrações. Esse primeiro pedido foi recusado bruscamente. Mas eles continuam tentando, e creio que voltarão a pedi-lo formalmente.

Neste contexto, lamento profundamente esses ataques provenientes dos mesmos ambientes tradicionais. Isso me recorda a situação do século IV, durante a crise ariana, que São Basílio Magno descrevia como um combate naval noturno, em meio à neblina, onde, em vez de atacar os navios inimigos, os bons acabam atacando-se entre si.

Considero que nossa situação é a mesma. Por que a Fraternidade São Pedro ou outras deveriam atacar publicamente a Fraternidade São Pio X, ameaçá-la, qualificá-la de cismática? Deveriam antes dizer ao Santo Padre: ‘Santo Padre, pensamos que Vossa Santidade deveria fazer um gesto generoso. Concedei-lhes, a título excepcional, a permissão para as consagrações. É uma questão de direito eclesiástico, não de direito divino. Depois, lentamente, passo a passo, nós os integraremos e dialogaremos com eles. Isso levará tempo’.

Isso é o que todas as comunidades Ecclesia Dei deveriam fazer. Mas, em vez disso, atacam. E correm o risco de passar à história como aqueles que São Basílio descrevia: os que, em plena crise, atacavam seus próprios irmãos.”

Um chamado a um reconhecimento futuro de Dom Lefebvre

Dom Schneider não oculta sua admiração pelo intrépido bispo que foi Dom Marcel Lefebvre, expressando a esperança de vê-lo um dia elevado aos altares:

“Quisera convidar todas as realidades da Igreja — a Fraternidade São Pedro, que muito aprecio e que realiza um excelente trabalho, os outros institutos, os bons bispos — a unir-se mais, a serem mais fraternalmente positivos para com a Fraternidade São Pio X, para que formemos juntos uma só força para restaurar nossa Santa Mãe Igreja nesta situação de emergência sem precedentes.

E é preciso rezar pelo Papa, para que Deus o ilumine. O Papa deve ser o chefe da tradição; é o chefe nascido da tradição. E isso chegará. Devemos pedi-lo com insistência.

Penso que as próximas consagrações episcopais — ainda espero até o último momento que o Papa realize um gesto generoso —, mas ainda que isso não ocorresse, Deus o permitirá para o bem de toda a Igreja. A Divina Providência sabe como servir-Se de tudo isso.

Devemos ter uma grande confiança na Divina Providência e em Nossa Senhora, que é a Mãe da Igreja. É preciso implorá-La. E também é preciso implorar a Dom Lefebvre. Amanhã será o aniversário de sua morte. Estou convencido de que um dia, no futuro, será reconhecido pela Igreja como um grande bispo. E não excluo que um dia seja inclusive canonizado como bispo confessor em tempos difíceis, ele que sempre amou a Santa Sé e os Papas, embora tenha sido perseguido, suspenso, excomungado; ele que, até o fim, rezou pelo Papa e amou a Santa Sé e a Santa Mãe Igreja.”

No Certamen: uma crítica ao “papalismo” e a questão de uma eventual excomunhão

Em outra entrevista, desta vez escrita, concedida ao meio austríaco Certamen, Dom Schneider lamenta uma forma de “divinização” da autoridade do Papa entre alguns católicos:

“Ao longo dos últimos séculos difundiu-se uma interpretação errônea e antitradicional de dois dogmas do Primeiro Concílio do Vaticano: o primado de jurisdição do Papa e a infalibilidade pontifícia. Como resultado, surgiu uma forma de ‘papalismo’, isto é, uma absolutização, e até uma quase divinização da pessoa do Papa, convertendo-o no centro de toda a vida da Igreja, em detrimento da centralidade de Cristo e do enraizamento na Tradição. Numa tal visão excessiva, toda desobediência a uma decisão pontifícia é considerada um cisma.

Além disso, difundiu-se uma compreensão errônea da infalibilidade pontifícia, que leva a considerar de fato toda palavra do Papa como isenta de erro. Desenvolveu-se também uma concepção reducionista do cisma, que assimila toda situação canônica irregular a um cisma, independentemente das intenções e do fato de que essas pessoas reconhecem o Papa e rezam por ele na liturgia.

Do mesmo modo, uma sagração episcopal sem mandato pontifício costuma ser considerada automaticamente como um ato cismático, ou até intrinsecamente mau, o que contradiz a tradição canônica constante da Igreja. Antes do Código de 1983, tal sagração não era castigada com excomunhão, mas somente com suspensão. Ainda hoje, do ponto de vista jurídico, entra na categoria dos atos de usurpação de funções ou de violação da disciplina sacramental, e não diretamente dos atentados contra a unidade da Igreja.

De maneira mais ampla, desenvolveu-se uma mentalidade de positivismo jurídico, na qual a observância de uma norma eclesiástica é colocada acima da necessidade de preservar a clareza doutrinal e a pureza da fé e da liturgia.”

Dom Schneider permanece confiante na capacidade do Papa de elevar-Se acima das pressões exercidas por certos setores:

“O Papa possui uma autoridade de governo plena e total e pode agir com liberdade, independentemente das opiniões de seus colaboradores. Se dependesse sempre deles, não seria verdadeiramente livre. O Papa deve situar-Se acima dos partidos e agir como verdadeiro pastor e pai de todos os seus fiéis, incluídos os membros da Fraternidade.”

Apesar de tudo, a hipótese de uma excomunhão nula e injusta continua sendo possível, sem que isso impeça a FSSPX de cumprir seu dever:

“Se o Papa negasse o mandato e sancionasse as consagrações com excomunhão, só os bispos consagrantes e os consagrados ficariam juridicamente afetados, não os sacerdotes nem os fiéis. A vida pastoral provavelmente continuaria como antes. Inclusive é possível que a visibilidade midiática atraia mais fiéis e convertidos, especialmente se a crise atual da Igreja continuar agravando-se. Na atualidade, nada indica uma melhora.”

Um estado de necessidade mais grave do que em 1988

Para Dom Schneider, a situação da Igreja hoje é ainda mais grave do que em 1988; tal estado de necessidade justifica ainda mais as sagrações vindouras, em vista de uma restauração futura para a qual todos são chamados a contribuir:

“Estamos diante de uma situação quase apocalíptica: propagação de heresias, legitimação de comportamentos contrários à lei natural, sincretismo religioso, indiferentismo, atentados contra a disciplina sacramental e o celibato sacerdotal, sacrilégios e perda da fé. E tudo isso, às vezes, com a implicação de membros do clero em altos níveis.

Numa situação assim, só uma intervenção divina pode trazer uma solução: seja mediante uma prova purificadora, seja mediante uma profunda conversão do Papa à Tradição, fruto das orações e sacrifícios dos fiéis, especialmente dos mais humildes.

Uma coisa é certa: a Igreja permanece nas mãos de Deus. Cristo é o piloto da barca da Igreja, mesmo se parece dormir em meio à tempestade. Mas cremos firmemente que Se levantará de novo para acalmar as ondas, e que a santa Igreja romana voltará a ser plenamente o farol e a cátedra da verdade.”

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Veja a entrevista de The Remnant clicando aqui.

Entrevista de Certamen clique aqui