Sob a proteção dos anjos da guarda

Fonte: Casa Autônoma do Brasil

Uma devida devoção ao nosso anjo da guarda não deve cair no exagero nem no esquecimento.

O quarto livro de Reis relata que os sírios queriam prender o profeta Eliseu. Ao ver os soldados, o servo do profeta ficou com medo. Então Eliseu lhe disse: “Não temas; muitos mais estão conosco do que com eles. E Eliseu, fazendo oração, disse: Senhor, abre os olhos deste, para que veja. E o Senhor abriu os olhos do criado, e viu, e o monte apareceu cheio de cavalos e de carroças de fogo, ao redor de Eliseu. (4 Reis 6, 16-17). Fillion comenta: “Eliseu e seu servo contemplaram ao redor deles as tropas de anjos, enviados do alto para defendê-los.”

Esta passagem do Antigo Testamento nos revela a existência de anjos, que podem ser enviados por Deus para proteger os homens. De fato, é uma verdade de fé que Deus criou, do nada, no início dos tempos, seres espirituais, e que a tarefa secundária destes é a proteção dos homens e o cuidado com sua salvação. Quase todos os teólogos ainda acreditam – é, portanto, uma sentença comum – que todo homem, mesmo infiel, tenha um santo anjo particular desde seu nascimento. O Catecismo do Concílio de Trento fala disso na explicação do Pai Nosso: “Desde o nosso nascimento, Deus coloca os anjos para nossa guarda e os estabelece individualmente para velar pela salvação de cada um de nós.” Santo Tomás de Aquino ensina: “Assim como se dá um guarda aos homens que percorrem uma via insegura, assim todo o homem, que está aqui na terra como um peregrino, goza da guarda de um anjo.” Foi o Papa Clemente X, em 1670, que estabeleceu para a Igreja universal a Festa dos anjos da guarda em 2 de outubro.

Podemos nos perguntar quando “recebemos” este anjo: no nascimento ou no batismo? Santo Tomás de Aquino responde que é desde o nascimento (por isso todo homem tem um anjo), mas este anjo desempenha um novo papel a partir do batismo. E antes do nascimento? O mesmo teólogo afirma: “A criança, não estando separada de sua mãe, é confiada à guarda do anjo que vela por ela.”

Teria, Nosso Senhor, um anjo da guarda? Eis a resposta de Santo Tomás de Aquino: “Cristo, enquanto homem, sendo regido imediatamente pelo verbo de Deus, não precisava da guarda dos anjos. E, demais, era, pela alma, compreensor; mas era, em razão da passibilidade do corpo, viandante. E por isso, não lhe era devido, nenhum anjo custódio como superior, mas antes um anjo ministrante, como inferior. É por isso que o Evangelho diz: “Os anjos se aproximaram e O serviram” (Mt 4,11). Acrescentemos que no Horto das Oliveiras, um anjo vem especialmente para consolá-lo (Lc 22,43). E no momento de sua prisão, disse a São Pedro: Julgas porventura que eu não posso rogar a meu Pai, e que ele me não porá aqui logo mais de doze legiões de anjos? (Mt 26, 53)

Nosso Senhor falou também dos anjos da guarda das crianças: Vede, não desprezeis um só destes pequeninos, pois vos declaro que os seus anjos nos céus vêem incessantemente a face de meu Pai, que está nos céus (Mt 18,10). Ele evocou também suas frequentes relações com os anjos: Em verdade, em verdade vos digo, vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem. (Jo 1,51). Comentando este versículo, Fillion explica que Nosso Senhor estava em perpétua comunicação com o Céu, e os anjos estavam constantemente à sua disposição para cumprir suas vontades.

Os Padres da Igreja vêem três grandes funções desempenhadas pelos anjos da guarda e lhes dão três nomes específicos para isso. São João Crisóstomo fala do anjo da paz, porque ele protege a alma de problemas exteriores e interiores. O Pastor de Hermas evoca o anjo da penitência, porque ele pode nos repreender e nos punir quando nos desviamos do caminho certo. Santa Francisca Romana foi assim, um dia, esbofeteada por seu anjo depois de ter se comportado mal… Quanto a Tertuliano, ele fala do anjo da oração, porque o anjo da guarda transmite nossos pedidos a Deus e nos assiste na oração.

Santo Tomás de Aquino acrescenta que o anjo da guarda desempenha um papel tanto na alma quanto no corpo. Apresenta à inteligência as ideias que quer sugerir. Não força a vontade, mas pode excitá-la, ajudá-la na prática do bem. Ele é o guarda-costas. Sobre este assunto, pode surgir uma objeção: por que  sempre há acidentes? Será que os anjos da guarda têm momentos de ausência? Não, claro que não, mas aqui tocamos no problema da permissão do mal. Deus não o quer, mas pode permitir, porque é poderoso o suficiente para obter dele um bem maior. Santo Tomás escreve mesmo: “Os anjos bons não nos afastam das ciladas do demônio, que devem servir para a salvação da nossa alma.” Podemos pensar também no que o Cura d’Ars costumava dizer: o anjo da guarda não entra nos bailes, fica à porta. Em outras palavras: também nos podemos colocar em ocasiões perigosas.

Portanto, não nos esqueçamos de nosso anjo da guarda. Rezemos a ele diariamente, recorramos a ele com frequência. O Pe. Calmel, em seu livro Os Mistérios do Reino da Graça, dá exemplos. “Quando estiveres prestes a ter uma entrevista, especialmente se temes que será difícil ou tempestuosa, é bom que confies em seu anjo; não na esperança de que vá mudar teu caráter ou o da pessoa que tens diante de ti; mas para além de poder limitar os danos que seus defeitos de caráter tenderiam a causar, teu anjo, se o invocares com piedade e perseverança, não deixará de inspirar teus pensamentos e sentimentos, durante e depois deste encontro, de modo que, ainda que falhes em algum deles, dará frutos espiritualmente e permitirá que cresças na caridade.” 

O dominicano também pensa nos estudos. “Estás lidando com uma questão doutrinal particularmente difícil, dando voltas e invertendo as coisas, multiplicando leituras e pesquisas sem nunca conseguir colocar a questão em termos justos, nem vislumbrando a resposta, nem percebendo o que está em segundo plano, nem compreendendo a relação exata com as verdades reveladas? Bem, nesta aflição e neste labor, por que não recorres a este companheiro luminoso, que compreendeu a questão antes de ti e melhor do que ti, que nunca deixa de vê-la em um flash radiante cuja percepção é mais aguçada e melodiosa que a de todos os doutores humanos, porque é a percepção de um espírito puro?” 

Não será surpresa descobrir que D. Lefebvre, em seu Itinerário Espiritual, fez eco a esta doutrina sobre os anjos da guarda: “Quão grande é o prejuízo causado às nossas almas por esquecermos este mundo espiritual de anjos mais numerosos do que os homens, mais perfeitos do que eles. A influência de anjos bons ou maus em nossas almas é muito mais importante do que pensamos. O simples fato de termos um anjo da guarda que nos vigia enquanto contemplamos a face de Deus deve nos encorajar a conversar com ele, a pedir seu socorro, para que ele nos ajude a conquistar a vida eterna e a compartilhar sua felicidade.”

Que Nossa Senhora dos Anjos nos ajude a ter uma justa devoção ao nosso anjo da guarda, que não caia no exagero nem no esquecimento.

Pe. Vicent Grave, FSSPX