Maria é Medianeira: o título que a Igreja não pode esquecer
“Todas os tipos de graça que retiramos do tesouro da redenção nos advém, por assim dizer, das mãos da Virgem dolorosa.”
O cristão ama a Santa Virgem Maria. É sua Mãe. Esse amor encoraja a contemplar seu papel único e sublime na obra de nossa salvação. Ao aprofundar o mistério de seu Filho, o Cristo, único Redentor e Mediador, descobre-se a plena verdade sobre o lugar singular de sua Mãe na obra da salvação. Diante das discussões contemporâneas que buscam minimizar seus títulos gloriosos, é essencial reafirmar, com a Tradição e o ensino constante dos Papas, que Maria é verdadeiramente Corredentora e Mediadora universal de todas as graças. Essa doutrina, longe de igualar a Virgem a Cristo, reconhece o modo próprio pelo qual Deus quis salvar o mundo.
Maria Corredentora: a “Nova Eva” associada a Cristo
A fé católica afirma firmemente que Jesus Cristo é o único Redentor, pois é o Verbo encarnado, Sacerdote e Vítima, que possui uma dignidade divina e um poder redentor que nenhuma criatura compartilha.
“Não há salvação em nenhum outro. Pois não há debaixo do céu nenhum outro Nome que tenha sido dado entre os homens pelo qual devemos ser salvos.” Ato 4, 12.
Contudo, à questão de saber se Deus quis associar uma criatura à oferta reparadora de Cristo, toda a Tradição da Igreja responde: Sim, Maria, a Nova Eva, participa da Redenção. É, com efeito, da mais alta conveniência que uma mulher participe do levantamento assim como uma mulher participou da queda original. Desde os primeiros séculos, a Igreja reconheceu que, “pela obediência da Virgem, o gênero humano foi liberto da corrente do pecado.” (Santo Irineu)
Uma ação subordinada e um mérito de conveniência
Essa associação é magnificamente resumida pelo papa São Pio X em sua encíclica Ad diem illum: “porque Maria excede a todos em santidade e em união com Cristo, e por ter sido associada por Ele à obra redentora, ela nos merece de congruo, segundo a expressão dos teólogos, o que Jesus Cristo nos mereceu de condigno, sendo ela ministra suprema da dispensação das graças.” O mérito de Cristo é, em stricto, de justiça (de condigno), ligado à graça da união hipostática que lhe confere um valor infinito. O mérito de Maria é de conveniência (de congruo): resulta da plenitude de sua graça e de sua Maternidade divina.
Seu mérito mede-se à grandeza de sua caridade, que é inigualável e superior depois daquela de Cristo. Seu mérito de conveniência tem a mesma extensão que o mérito de justiça do Salvador: ele é universal, pois todos os homens recebem seu fruto.
Maria participou do ato redentor: pela Encarnação, ela forneceu a vítima, e se uniu, em intenção, ao sacrifício de Cristo. O preço desse resgate, o Precioso sangue, foi produzido da própria substância de Maria. Ela está presente no Calvário, não como espectadora, mas unida ao Sacrifício, com seu coração se oferecendo com o Coração do Filho. Seu sofrimento de compaixão, único, “deu à paixão de Cristo uma qualidade que lhe teria faltado” (RP Nicolas) ao completar a oferenda de Cristo por todo o sofrimento humano do qual ela podia ser capaz.
Os Papas o afirmaram veementemente: Bento XV escreve que “com seu Filho sofrendo e padecendo, Maria suportou o sofrimento e quase a morte… Ela imolou seu Filho, na medida em que o podia, de modo a poder realmente afirmar que, junto com Cristo, ela resgatou o gênero humano.” Pio XI, o primeiro Papa a utilizar explicitamente o termo Corredentora, declarou:
“O Redentor devia, pela força das coisas, se associar a Maria em sua obra. É por isso que a invocamos sob o título de corredentora.”
A devoção popular também foi encorajada. Durante o pontificado do glorioso Papa São Pio X, um decreto do Santo Ofício, de 26 de junho de 1913, louvou o “hábito de acrescentar, ao nome de Jesus, aquele de sua Mãe, nossa corredentora, a bem-aventurada Virgem Maria.” A mesma congregação concedeu uma indulgência pela recitação da oração na qual Maria é chamada “Corredentora do gênero humano”, em 22 de janeiro de 1914.
Maria Medianeira universal de todas as graças
Essa participação íntima na obra da Redenção confere a Maria, naturalmente, um papel essencial na dispensação de seus frutos. Seu título de Corredentora está intimamente ligado ao de Medianeira universal das graças.
A obra da salvação é operada por Jesus Cristo, no Calvário. Maria participa de um modo único, tanto para adquirir as graças, em associação subordinada a Jesus Cristo, e, ao mesmo tempo, para aplicar as graças assim adquiridas.
“Dela a Mãe de Deus participa conforme seu papel de mediação universal das graças.”
O mérito dos justos obtém apenas a aplicação das graças, onde a Virgem participa igualmente à sua própria aquisição. São Pio X o afirma: Maria é “a ministra suprema da dispensação das graças”, “a dispensadora de todos os tesouros que Jesus nos adquiriu por sua morte e por seu sangue.” Leão XIII ensina que “após ter sido cooperadora da Redenção humana, tornou-se também, por todos os tempos, pelo poder quase imenso que lhe foi concedido, a dispensadora da graça que deriva dessa Redenção.” Bento XV acrescenta que “todos os tipos de graças que retiramos do tesouro da redenção nos advém, por assim dizer, das mãos da Virgem dolorosa.”
A devoção e o ensino tradicional estão tão enraizados que o Missal romano contém até uma missa dedicada à “Maria Medianeira de todas as graças”. Por sua cooperação, ela mereceu não somente as graças a serem aplicadas aos homens, mas também as graças a serem adquiridas pelos homens. É por isso que o ensino do Papa Leão XIII continua radiante: “pela vontade de Deus, Maria é a intermediária pela qual nos é distribuído esse imenso tesouro de graças… de modo que assim como não se pode ir ao Pai supremo senão pelo Filho, não se pode alcançar a Cristo senão por sua Mãe.”
É nosso dever, não somente agradecermos a Cristo, o autor principal de nossa salvação, mas também sermos gratos a Nossa Senhora, ainda que a um título secundário, por sua cooperação. Guardar e defender esses títulos é demonstrar nossa grata fidelidade à Mãe que se mantém de pé próximo da Cruz de Jesus, por nós.
Pe. François Delmotte, FSSPX