As Consolações do Purgatório – Folha Dominical 351 – 22 a 29 de novembro de 2020
Recorramos ainda ao testemunho da teóloga do purgatório, como foi chamada Santa Catarina de Gênova. A doutrina desta Santa, ou melhor, as suas revelações no Tratado do purgatório, escreveu o Cardeal Perraud, são de uma psicologia sobrenatural tão alta e tão forte, que unem as mais altas considerações da filosofia e da teologia, aos pensamentos mais próprio para fortificar e consolar os que choram os seus entes queridos. Eu não creio, escreve a Santa, que depois da soberana felicidade que gozam na glória os Santos, haja uma felicidade igual á que gozam as almas do purgatório. O que é notável é que esta felicidade vai crescendo cada vez mais á medida que desaparecem as manchas do pecado. E faz esta comparação: “Quando um corpo está escondido ao sol porque um outro corpo intercepta a luz solar, não pode receber a luz e permanece nas trevas. Todavia, se este corpo que impede a passagem dos raios solares for se consumindo e desaparecendo, o sol logo há de banhar de luz todo o corpo que estava antes nas trevas. Este corpo que impede a luz do sol é a mancha do pecado, o resto que fica a pagar à divina Justiça na outra vida e que impede a alma de receber a luz da glória, a Luz divina.
As chamas do purgatório vão destruindo este corpo que impede a luz até que desapareça e brilhe a Luz eterna. Assim a alegria das almas vai crescendo à medida que as manchas que ficaram vão desaparecendo. E elas se sentem muito felizes em sofrer para se purificarem. Estas almas tem uma perfeita resignação à vontade de Deus. As almas do purgatório jamais haviam de querer a presença de Deus, quando ainda não purificadas. Elas prefeririam sofrer dez purgatórios a se apresentarem manchadas diante do Senhor. Eis porque se purificam e sofrem com alegria. (Trat. Purgat. Cap. II)
O Padre Faber diz com razão: “Se o sofrimento suportado com doçura e resignação é um espetáculo tão venerável na terra, que não há de ser naquela região da Igreja o purgatório? Ó, que pureza se encontra neste culto, na Liturgia do sofrimento santificado! Ó mundo! lugar de tanto barulho, de tédio e de pecado, quem não desejaria escapar de tuas perigosa fatiga e de tua perigosa e triste peregrinação para voar alegremente para a mais humilde região, tão pura, tão santa e tão garantida, onde reinam o sofrimento e o amor sem mancha, o purgatório?” ( Faber – Purgatório, c. 3)
Apesar disto, não deixemos de temer o Purgatório e procuremos evitá-lo por uma boa penitência e por toda espécie de boas obras. Os sofrimentos não deixam de ser terríveis!
O Beato Henrique Suzo, abrasado no amor de Deus, começou a não temer o purgatório e a não dar importância aos seus sofrimentos e penas. Nosso Senhor lhe apareceu e admoestou, dizendo que isto lhe desagradava porque era não temer nem dar importância aos juízos de Deus! Devemos não nos desesperar nem aterrorizamos nossa alma com o purgatório, mas havemos de imaginar que ai há muitas consolações, é terrível também este purgatório.
“Tenhamos compaixão das pobres almas” – Mons. Ascânio Brandão